Atualizado 27/03/2019

Brasil consome 20% dos agrotóxicos comercializados no mundo

São 3.125 pessoas intoxicadas todos os anos no país, com SC entre os estados com maior taxa por habitante

Foto: Divulgação
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O Brasil consome 20% dos agrotóxicos comercializados no mundo — e o número só vem aumentando nos últimos anos. De 2007 a 2014, 25 mil pessoas foram intoxicadas por agrotóxicos no país, e mais de mil morreram, sem considerar a subnotificação.

 

    Esses e outros dados foram apresentados no primeiro dia do "Seminário sobre Agrotóxicos nos Alimentos, na Água e na Saúde", evento promovido pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC).

 

    São 3.125 pessoas intoxicadas por agrotóxicos todos os anos. Santa Catarina está entre os estados com a maior taxa de intoxicação por habitante. "E cerca de um quinto da população intoxicada são crianças e adolescentes de zero a 19 anos. Nós estamos contaminando nossas crianças", alertou a palestrante Larissa Mies Bombardi, doutora em geografia.

 

    Sonia Corina Hess, doutora em engenharia química, destacou os resultados do laudo que analisou as amostrar obtidas no levantamento do MPSC sobre a presença de agrotóxicos na água de abastecimento público dos municípios de Santa Catarina. O monitoramento, realizado com recursos do Fundo para Reconstituição de Bens Lesados (FRBL), identificou que 22 cidades recebem água com resquícios de agrotóxico, sendo que sete das 17 substâncias identificadas na água são proibidas na União Europeia.

 

    "E essa foi apenas uma coleta, em dia e horário específico. Caso fosse monitorado o ano inteiro, certamente haveria presença de mais agrotóxicos e em mais municípios, provavelmente até em todos", comentou a especialista.

 

    A doutora destacou, ainda, que existem mais de 500 agrotóxicos de uso autorizado no Brasil, e que a pesquisa envolveu 204, enquanto as realizadas pelas operadoras do sistema de água envolvem somente 27, conforme o parâmetro indicado pelo Ministério da Saúde.

 

    Agrotóxico e Saúde

 

    No painel "Agrotóxico e Saúde", a médica pediatra Silvia Regina Brandalise, o médico especialista em Laboratório de Função Pulmonar, Pablo Moritz, e o pesquisador em Saúde Coletiva na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), Jackson Rogerio Barbosa, trouxeram dados e informações relacionados com o impacto e os danos causados pelos agrotóxicos na saúde humana.

 

    Segundo Pablo Moritz, a toxicidade causada pelos agrotóxicos não é específica, uma vez que um agrotóxico, em contato com outros, pode se apresentar de diversas maneiras, causando alterações no metabolismo, nos pulmões, na reprodução e nos hormônios.

 

    Na sequência, Jackson Rogerio Barbosa, do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador (NEAST) da UFMT, garantiu que é impossível se falar em saúde quando o assunto é agrotóxico. Uma pesquisa realizada pelo Núcleo mostrou que, em 2017, cada pessoa consumiu 7,3 litros de agrotóxicos. No estado de Mato Grosso, 95% das nascentes de água estão no meio de plantações de soja, algodão e milho. Além disso, pesquisas ainda apontaram que a chuva apresenta presença de agrotóxicos no estado.

 

    Já a médica Silvia Regina Brandalise afirmou que as preocupações com os agrotóxicos vão além do contato direto com o produto. Segundo dados apresentados, a influência dos agrotóxicos surge mesmo antes do nascimento das crianças. Estudos realizados na Dinamarca e Itália, um de 47 anos de duração e outro de 12, respectivamente, comprovaram que locais com altos índices contaminantes resultam em altos índices de doenças como leucemia e tumores no cérebro. No estado de São Paulo, 7% das mortes de crianças de até cinco anos são causadas por má formação congênita.

 

    Governo vai reduzir desconformidade

 

    O secretário de Estado da Agricultura e da Pesca, Ricardo de Gouveia, e o secretário adjunto de Estado da Agricultura e da Pesca, Ricardo Miotto, anunciaram no seminário a decisão do governo de reduzir a desconformidade de alimentos com resíduos de agrotóxicos e fortalecer os sistemas e tecnologias de produção segura, com apoio forte da fiscalização da Cidasc e orientação da Epagri com o plantio direto de hortaliças, além de atuar no incentivo às pequenas propriedades e na agricultura familiar.

 

    A promotora de justiça e coordenadora do Centro de Apoio Operacional do Consumidor (CCO) do MPSC, Greicia Malheiros da Rosa Souza, destacou que o evento tem como ideia central sensibilizar os órgãos públicos que atuam na área para que, com informação, tenham coragem de criar novas soluções.

 

    “Esse momento serve justamente para a gente alinhar as ideias e sair daqui mais revigorados e mais informados, porque a informação nunca é demais. A informação faz com que a gente exija os nossos direitos, exija dos nossos fornecedores a qualidade dos alimentos, a qualidade da água, a qualidade de todos os serviços que a gente merece como direitos humanos", afirmou.

Fonte: Oeste Mais
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